Ah! O tempo!
- Arthur Souto

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Ah! O tempo cruel,
que me arrancou do ventre de minha mãe
quando eu ainda não sabia respirar sozinho
e me entregou ao mundo
sem perguntar se eu estava preparado.
Ah! O tempo bendito da infância,
quando os dias cabiam numa brincadeira,
as tardes custavam a morrer
e a eternidade parecia morar
no quintal de casa.
Ah! O tempo apressado,
que fez pequenas as roupas,
distantes os brinquedos
e transformou em lembrança
aquilo que eu julgava não ter fim.
Ah! O tempo severo da adolescência,
que me bateu tantas vezes
até que eu aprendesse
que crescer não era alcançar o alto,
mas levantar-me depois das quedas.
Ah! O tempo impaciente da juventude,
quando eu corria sem conhecer o caminho,
amava como se não houvesse despedidas
e desperdiçava horas
por acreditar que possuía todas elas.
Ah! O tempo generoso da maturidade,
que colocou ferramentas em minhas mãos,
responsabilidades sobre meus ombros
e me concedeu a sabedoria necessária
para construir a minha história.
Ah! O tempo sábio,
que fez das cicatrizes ensinamentos,
dos fracassos, novos caminhos,
e das lágrimas que escondi do mundo,
a água com que fortaleci minhas raízes.
Ah! O tempo silencioso,
que embranqueceu meus cabelos
enquanto escurecia algumas lembranças,
mas conservou dentro de mim
o menino que ainda procura o quintal.
Ah! O tempo cruel,
que agora começa a levar meus amigos,
esvaziando cadeiras, interrompendo conversas
e deixando nomes suspensos
nos lugares onde antes havia vozes.
Ah! O tempo inevitável,
que permanece à minha espera
e, a cada ausência, recorda-me
que também meus passos se aproximam
da última curva do caminho.
Quando chegar a minha hora,
não me arranques da vida com a mesma pressa
com que me arrancaste do ventre de minha mãe.
Permite-me olhar uma vez mais para trás
e reconhecer que, apesar das dores, valeu a pena.
Depois, recebe-me sem crueldade,
como quem recolhe um viajante cansado,
fecha devagar as portas do mundo
e abre, diante dos meus olhos,
o ventre infinito da eternidade.
Ah! O tempo,
meu primeiro algoz,
meu mestre mais paciente
e meu derradeiro companheiro
a caminho do descanso dos justos.
✍️ Escrito por: Arthur Souto
📚 Autor de: Pé de Menina, O Tumbeiro (Prêmio Book Brasil e Pluma de Ouro), A Fada do PIX (Prêmio Ecos da Literatura), Minha Vida em Versos e Flores.
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Colunista:
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