top of page

Ah! O tempo!


Ah! O tempo cruel,

que me arrancou do ventre de minha mãe

quando eu ainda não sabia respirar sozinho

e me entregou ao mundo

sem perguntar se eu estava preparado.


Ah! O tempo bendito da infância,

quando os dias cabiam numa brincadeira,

as tardes custavam a morrer

e a eternidade parecia morar

no quintal de casa.


Ah! O tempo apressado,

que fez pequenas as roupas,

distantes os brinquedos

e transformou em lembrança

aquilo que eu julgava não ter fim.


Ah! O tempo severo da adolescência,

que me bateu tantas vezes

até que eu aprendesse

que crescer não era alcançar o alto,

mas levantar-me depois das quedas.


Ah! O tempo impaciente da juventude,

quando eu corria sem conhecer o caminho,

amava como se não houvesse despedidas

e desperdiçava horas

por acreditar que possuía todas elas.


Ah! O tempo generoso da maturidade,

que colocou ferramentas em minhas mãos,

responsabilidades sobre meus ombros

e me concedeu a sabedoria necessária

para construir a minha história.


Ah! O tempo sábio,

que fez das cicatrizes ensinamentos,

dos fracassos, novos caminhos,

e das lágrimas que escondi do mundo,

a água com que fortaleci minhas raízes.


Ah! O tempo silencioso,

que embranqueceu meus cabelos

enquanto escurecia algumas lembranças,

mas conservou dentro de mim

o menino que ainda procura o quintal.


Ah! O tempo cruel,

que agora começa a levar meus amigos,

esvaziando cadeiras, interrompendo conversas

e deixando nomes suspensos

nos lugares onde antes havia vozes.


Ah! O tempo inevitável,

que permanece à minha espera

e, a cada ausência, recorda-me

que também meus passos se aproximam

da última curva do caminho.


Quando chegar a minha hora,

não me arranques da vida com a mesma pressa

com que me arrancaste do ventre de minha mãe.

Permite-me olhar uma vez mais para trás

e reconhecer que, apesar das dores, valeu a pena.


Depois, recebe-me sem crueldade,

como quem recolhe um viajante cansado,

fecha devagar as portas do mundo

e abre, diante dos meus olhos,

o ventre infinito da eternidade.


Ah! O tempo,

meu primeiro algoz,

meu mestre mais paciente

e meu derradeiro companheiro

a caminho do descanso dos justos.


✍️ Escrito por: Arthur Souto


📚 Autor de: Pé de Menina, O Tumbeiro (Prêmio Book Brasil e Pluma de Ouro), A Fada do PIX (Prêmio Ecos da Literatura), Minha Vida em Versos e Flores.


Visite meu site e veja minhas obras com frete grátis para todo Brasil:



📸 Instagram: @mundo_encantado_dos_livros

Colunista:

Jornal Rol

Revista Adupé

Membro das Academias de Letras:

Academia Independente de Letras, da NAISLA (Núcleo Accademia Italiano di Scienze Lettere e Arti)

Academia Internacional de Literatura

Academia de Letras do Brasil - ALB


Posts recentes

Ver tudo

Comentários


bottom of page