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O GRANDE BAILE ONDE O CARNAVAL

  • Foto do escritor: Arthur Souto
    Arthur Souto
  • há 12 horas
  • 2 min de leitura

O Carnaval não começou como festa, mas como licença, uma trégua solene entre a ordem e o caos, onde deuses, reis provisórios e o povo comum aprendiam a trocar de lugar sem pedir desculpas. Antes de virar desfile, fantasia e confete, ele foi rito, inversão, sobrevivência e provocação histórica; um grande baile em que a humanidade, cansada de obedecer o calendário da moral, decidiu dançar com seus próprios excessos. É nesse salão improvável, onde o sagrado tropeça no profano e a tradição entra sem convite, que esta crônica abre as portas e deixa o Carnaval contar a sua própria história.


Na portaria do Clube Atlântico Social, a confusão começou cedo.

Um segurança tentava entender por que um homem de toga romana queria entrar dizendo que “era dono da festa”.

— Nome?

— Baco.

— Sobrenome?

— Deus do vinho.

Atrás dele, um sujeito barbudo, de sandálias, túnica e cara de professor de filosofia, cochichava:

— Dionísio… mas pode me chamar de fundador disso tudo.

Mais atrás ainda, um rapaz magro, com uma coroa torta e um olhar assustado, explicava:

— Eu sou o rei por hoje. Amanhã volto para a prisão. Tradição da Mesopotâmia.

— Fantasia criativa — anotou o segurança.

No interior do salão, um telão piscava: GRANDE BAILE DE CARNAVAL — ADEUS À CARNE!

— Olha… “carne vale”! — vibrou Baco. — Ainda usam nosso slogan!

Uma freira passou jogando confete.

— Eu achei que vocês tinham proibido a gente? — questionou Dionísio.

— Proibimos e incorporamos — respondeu ela, no embalo da marchinha. — Marketing.

No meio do salão, um português chegou com um balde.

— Entrudo! Água, farinha, ovo, laranja podre! — gritou, feliz da vida.

— Misericórdia! — exclamou Dionísio. — Vocês evoluíram?

Logo em seguida, um grupo de senhores de cartola entrou.

— Carnaval de Veneza, meus caros. Aqui não entra farinha.

— Muito menos povo — completou outro.

Mas atrás deles vieram os cordões, os ranchos e os afoxés. Um atabaque falou mais alto que o piano. O chão mudou de ritmo.

Uma baiana rodopiou e gritou:

— Aqui nasce o samba!

O prisioneiro mesopotâmico virou Rei Momo.

O português virou mangueira.

A elite perdeu o compasso.

— Nós fizemos bagunça… vocês fizeram identidade! — exclamou Baco, chorando de felicidade.

Dionísio completou:

— Na Grécia era excesso. Em Roma era colheita. No Brasil virou sobrevivência!

A bateria entrou. E alguém anunciou:

— Com vocês… a história do Carnaval em pessoa!

O povo entrou... e a festa nunca mais foi só festa.

Desde então, dizem que toda terça-feira gorda tem um deus antigo dançando errado no meio da bateria. E que o samba é, na verdade, a memória do mundo aprendendo a respirar.


✍️ Escrito por: Arthur Souto


📚 Autor de: Pé de Menina, O Tumbeiro (Prêmio Book Brasil e Pluma de Ouro), A Fada do PIX (Prêmio Ecos da Literatura), Minha Vida em Versos e Flores e Tonha, a Barraqueira.

📸 Instagram: @mundo_encantado_dos_livros

Colunista do Jornal Rol



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