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Sentido sem sentido

  • Foto do escritor: Arthur Souto
    Arthur Souto
  • há 2 horas
  • 2 min de leitura

Essa nova crônica irônica de Arthur Souto,

retrata com humor crítico, o choque entre autoridade e conhecimento em uma sala de aula cívico-militar. A partir de erros simples transformados em símbolo, o texto revela como disciplina sem formação vira encenação, e como a ignorância, quando revestida de poder, faz mais barulho do que ensina.



No primeiro dia da escola cívico-militar, a lousa acordou mais cedo. Estava nervosa. Nunca tinha passado por revista, nunca tinha visto coturno de perto e muito menos imaginado que seria convocada para um treinamento de guerra semântico.


O policial entrou em sala com postura de general, voz de quem já deu ordem até para pensamento alheio, e anunciou:


— Atenção! Hoje vamos aprender os movimentos básicos!


A classe ficou em posição de quase sentido, aquele estado clássico do aluno brasileiro: corpo presente, alma no recreio. Ou será que era "sem sentido"?


O agente virou-se para a lousa, pegou o giz como quem empunha uma espada e escreveu, com autoridade marcial: DESCANÇAR


A lousa engasgou. O giz tossiu. O apagador suou frio.


Contudo ninguém teve coragem de rir. Em ambiente militar, até a gargalhada pede autorização.


Logo abaixo, veio o segundo comando: CONTINÊCIA


A palavra perdeu um N em combate. Tombou no campo de batalha ortográfica.


Um aluno da última fileira cochichou:

— Professora, isso aí não tá errado?


A professora não respondeu. Estava ocupada demais tentando entender se aquilo era aula ou um episódio de Pegadinha do Ensino Público.


Do lado da porta, alguém sinalizou discretamente para o PM. Ele corrigiu o “descançar”, porém deixou a “continêcia” agonizando sozinha, sem socorro linguístico.


Minutos depois, voltou, acrescentou o N e salvou a palavra... tarde demais. O estrago já estava feito.


A lousa, humilhada, pensou: “Passei anos levando acento fora de lugar de aluno, verbo no infinitivo eterno, concordância em greve… mas nunca imaginei ser derrotada pelo próprio instrutor.”


E foi assim que a escola entendeu: naquele dia, quem precisava entrar em posição de aprendizado não eram os alunos, e sim o modelo.


Porque disciplina sem formação vira teatro. Autoridade sem domínio vira caricatura. E giz sem saber escrever vira só pó… com farda.


No fim da aula, ninguém aprendeu a tal da continência. No entanto todo mundo aprendeu uma coisa nova: que até a ignorância, quando usa coturno, faz mais barulho.


✍️ Escrito por: Arthur Souto


📚 Autor de: Pé de Menina, O Tumbeiro (Prêmio Book Brasil e Pluma de Ouro), A Fada do PIX (Prêmio Ecos da Literatura), Minha Vida em Versos e Flores.


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📸 Instagram: @mundo_encantado_dos_livros

Colunista:

Jornal Rol

Revista Adupé


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